9.10.11

saudade

posso pensar em desespero em uma noite no meu do mundo no meio do nada no meio de ondas sonoras toscas que fazem com que eu pense interruptamente naquele momento em que te abraço no momento em que te encontro naquele momento em que a fábula é só uma linguagem literária que o teu cheiro encontra o meu em que a gente se abraça e fica tudo tão feliz?

6.10.11

as cartas da última gaveta da cozinha

vou jogar fora vários pares de meias
cortar as calças velhas
deixar curtas
como bermudas
limpar o baleiro

vou jogar fora os drops velhos da vida
pedaços daqueles dias frios
traços daqueles esquadros rabiscados a carvão
do tempo que o preto era contraste
quando o branco era penúria
o apito do trem era distante
quando a largura da cama não variava
não existia escova de dente reserva
quando a insanidade era não te falar
vou jogar fora todas as cartas que te escrevi
que dormiam no fundo da última gaveta da cozinha
delas não preciso mais
elas não superam o toque do teu nariz no meu

(para Carolina Reichert)

22.9.11

Ontem éramos crianças, hoje somos máquinas

Eu não sentiria falta da pontada do barulho que os morcegos fazem na minha janela. Não sentiria falta daquela peça encrustada de poeira que vejo da mesa da cozinha com a cabeça bêbada escorada no azulejo.
Sinto muita falta do que meus braços já não podem alcançar. Do que me é privado pelo espaço, pelo tempo, pela geografia e pela dimensão. Sinto falta da minha mãe, do meu pai e do meu gato xadrez. Do barulho da rua. Do barulho da minha rua. Da batida da bola murcha no chão, da bolita que sumia entre as folhas. De bater e ser batido no esconde-esconde. Dos cabelos compridos das meninas que cheiravam a creme com suor inocente da corrida do pega-pega. Das conversas intermináveis em volta da quadra.
Dar a volta na quadra quando a gente é pequeno demora. Quando a gente é pequeno, tudo é grande, comprido, demorado. Os irmãos mais velhos são bem mais velhos, as avós, então, nem se fala. Os muros altos são paredões espartanos. Intransponíveis até que o primeiro descubra a "manha". Depois a gente sobe, cria aventuras, brinca de "siga o mestre". Cipó em arvore vira desafio, separa os guris dos guris que merecem respeito na turma. Quantos carrinhos quebramos em nossas pistas imaginárias feitas de papelão e tijolos? Quanto carrinhos recriamos? Aqueles com rodinhas desproporcionais? Quantos perderam a fricção?
Gostaria de reunir todas as bolas furadas e fazer um mar de lembranças dos tempo em que jogar bola era recreio, era rasgar calça, esfolar joelho, cortar o braço. Fazer gol e imitar o Bebeto e o Romário. Todos éramos Romários e Bebetos. Cada um com seu sonho, suas micagens, suas delícias e malemolências. Seríamos médicos, pilotos de caça, heróis de guerra, jogadores de futebol em copas do mundo.
Hoje, quase não temos direito de fazer castelos de areia na praia, nossos momentos são efêmeros. Hoje, lutamos de verdade com a vida. Ainda somos filhos, sempre seremos, mas hoje somos pais, tios de verdade e emprestados. Somos por aí. Por lá e por qui. Caímos às vezes, mas como antes, sempre resta um para ajudar a levantar. Ou dois, ou três. Hoje somos órfãos num mundo caótico que nos transforma em máquina.
Somos máquina o tempo todo. Nos vemos máquinas, nos falamos máquinas. Ser máquina é o que nos permite viver e nos permite a possibilidade de não sermos máquinas por um dia no máximo. Perdemos o direito de jogar bolita. O telefone celular é o que nos permite ouvir nossas vozes mesmo que rapidamente para não gastar muito crédito. Se não formos máquinas, a vida nos come, nos consome e ficamos para trás.

*este texto é minha manifestação em relação aos meus 28 anos. Representa toda a saudade que trago na memória. Representa minha insatisfação enquanto humano com o espaço e tempo que me separa das minhas pessoas queridas. E é, também, em homenagem aos meus amigos que tanto amo e sinto falta do abraço.

17.9.11

simples assim

te envolvo com apenas um braço desses dias curtos e amarelos quase laranjas se o inferno tem uma parte boa tem teu nome bruxa delicada isso não tem nada de céu o céu não suportaria tamanha intensidade teu vírus não tem cura tua mão na minha a cada passo simples assim

13.9.11

porcas manhas

daqueles dias de gírias indômitas
cavavam na pele a gastura dos meus ouvidos
de gasto era meu colo teu
da fome que corroía a leveza
de ti restou a corda do arco com teu cabelo
da rabeca que tocava, o eco
quando morri, juntei folhas de repouso
meu ninho cravejado de espinhos que te emprestei a passeio
docas e docas nadei e afoguei
porcas manhas das tuas agruras
arranhando desde a ponta
da caixa que te fiz
ao enterro dos meus pés na água congelada


11.8.11

bastante

do tempo em que o calor era bom
quando as cinzas torneavam tua face
colada na minha
eis que me rendo
íntegro - hoje - integro a parte que te falta
na tua indiferença me basto
com meus calcanhares puídos
contando quimeras
letras em letras
alvitres
do que dissimulamos
parafraseamos
distanasiamos

1.8.11

num instante

balbuciei palavras trêmulas
segurei teu braço com força
tingi tua pele com a minha
apertei tua voz contra meu peito
do eco, se fez nossa alcova
no instante em que teu olho agradeceu
e quando do sono se fez realidade

28.7.11

Curtos

Nem só de trovão se faz um delírio
Da casa de dentro de fora afora as delongas
Costurando aspas em meus devaneios
Tropeços nos fios curtos dos teus cabelos
Onde faria morada
Transverso ao que te negas
Do que te entrego em ondas

(para todas as mulheres de cabelos curtos - que são as que prefiro)

27.7.11

lá

ficamos assim
um lá
e outro cá

na nossa razão

coração?

de ponta a ponta te soube

te quis mais que meu orgulho

mesmo assim

no meio de outrem

uma página que viraria e acabou rasgando

26.7.11

Amar é morrer um pouco - e, também querer matar

Meu Amor
Yanto Laitano

Meu amor, eu te odeio
você me perturba
E um dia ainda vou conseguir te matar

Meu amor, não sei o que eu sinto
Tô num labirinto
E esqueci de trazer um fio prá retornar

Mas meu bem, tudo bem
Meu bem, tudo bem
Eu juro que levo teus olhos castanhos comigo

Meu amor, não fale comigo
Sou teu inimigo
E um dia ainda vou conseguir te matar

Amor, cale tua boca
E tire tua roupa, benzinho
E vamos acalmar nossa dor

Mas meu bem, tudo bem
Meu bem, tudo bem
Eu juro que levo teus olhos castanhos comigo


Curte aí a canção ao vivo no Theatro São Pedro.


Falando nisso o Yanto Laitano toca no bar Macondo Lugar no próximo sábado, dia 30.
Promete ser um show muito bom.
No site do Yanto tem todas as músicas do disco Horizontes e Precipícios pra ouvir ou pra baixar.

Mais infos aqui.

Sabrina (Capítulo 1)

Foi numa daquelas tardes quentes que a gente torcia a testa pra enxugar o mar de suor dentro daquela salinha sem janela. Ele saiu pra fumar um cigarro - na rua, uma nesga de sombra cobria parcialmente o corpo de um rato morto sobre a calçada - e esfriar a cabeça depois da discussão com a sogra.
Na manhã havia acordado com o barulho do metrô que colidira com um motociclista bêbado. Não há humor que resista. Ainda levantar e encontrar a sogra na cozinha de chambre roxo com flores amarelas comendo cuca de laranja com chimia de uva. Aquele olhar soberbo e um resmungo de bom dia "seu bosta". Ele não quis controlar a porra da boca. Enfiou logo o dedo na cara da velha e descarregou palavrões acumulados desde a última visita. Em seguida acendeu um cigarro que mal conseguiu fumar. A inquietude mental fazia com que seu corpo tremesse até o bigode. Jogou logo o cigarro que pipocou na parede e caiu no pé do sofá com forro puído pela bunda gorda da mulher que passa os dias fazendo crochê para os panos de prato que vende para as vizinhas linguareiras.
Os dias de trabalho no empacotamento do moinho de farinha eram molestos. A carga era parelha com a pressão do diretor que fiscalizava cada pacote antes de encaixotar. O salário motejava a desgraça ao fim do mês. Pensou várias vezes em sair de casa e começar a assaltar velhinhas na praça. Não era justo com a vida fazer isso. Tomar pau de brigadiano, virar mulher de negão aidético no xadrês. Tergiversando esses pensamentos seguia a rotina modorrenta no subsolo da "firma".
Quando tentou acertar a bituca no rato que jazia a sua frente sentiu a presença de alguém e segurou o ato. Era hora de saída do colégio próximo. Um grupo de alunos primários passava. Comentavam extasiados a briga da hora do recreio. As meninas arrodeavam o vencedor. Os puxa-sacos vangloriavam-se de sentarem próximos ao mais novo maiquetaisson do bando. Na roupa ele carregava a marca vermelha de sua vítima. Chutes na barriga, socos e mais socos na cara do infeliz que ousou cumprimentar a mina mais bonita da turminha do galo. Ela obviamente vinha na frente do bando. Imaculada e brilhante. Com o sorriso amarelo. Porém feliz em ser objeto de disputa e ter algum valor na vida. Nem era tudo isso. Menina de cabelos pretos, pele muito branca, olhos pretos, tatuagem desbotada no pescoço. Saviano brecou o braço de um moleque que representava o golpe de misericórdia de seu ídolo. Nesse momento seu olhar cruzou com o dela.

20.7.11

drops sem peso

Não me contento com drops da tua alma
Não sou tão tão leve assim
Pesam-me os ossos
Os da cabeça exigem quilos
Os do peito, toneladas
Não me basta teu cabelo
Não me basta o teu cheiro
Não me bastam teus segundos
Sou viciado em ti

aquele lance de ver o nome ali ao lado
estático
não sobe, não desce, não muda
fica ali parado
inerte
fixado pela dúvida falsa, pelo pavor dissimulado
o que não para é a busca por ele
por movimento
sentimento
sinal verde ou lua
lua. lua de coração? talvez
meia lua ou eclipse? eclipse
lua cheia? só se for nova. negra
ou sorrindo com a fase
que fase?
a velha caquética
plaster caster
e o sentimento é esse monstro gigante
sem braços, nem pernas
cambaleando
pendendo pra cá e pra lá
dentro de uma caixa de ossos prestes a explodir
fraca e que não sabe dividir espaço com o resto

trovoada melancólica

Daquele dia que te reneguei
Tão doído e ácido
Tão grande quanto as mentiras que eram
Das que te mentias
Das que eu mentia e me mentias
Como a faca invadindo a carne a furo já feito
(E cravando mais e mais)
Da corda que não asfixia
Da distância que meu coração não sacia
Jaz a palavra que não mais respeito


.
Apanhador Só - Nescafé
.

15.7.11

vento

venta, vento
norte, norte
forte
que algo me importe
cicatrize o corte
venta, vento
venta
lento
lamento

2.7.11

"do que é amor ficou o seu retrato"

meu coração sempre teve pressa.
nunca entendeu - nem quis - teus quandos e ondes.
ele só quis pulsar. quebrar. bater - por vezes no sentido agressivo.
e não era por que era doente.
ele não o é.
pode ele ser de um rítmo diferente?
pode.
provavelmente.
provavelmente ele te esculpiu.
da forma que ele imaginou.
com a batida frenética. típica dele.
ele negou outros batidos.
outras faces e outros amores.
tantos que nem sabe contar.
ele bateu sem sentido e segue.
mil vezes bateu descompassado pelo teu passo.
pelo teu desdém.
por acreditar que a hora se fazia pelo jeito.
e não pela canastra que oferecias a ele.

*retratos são legais porque guardam momentos.
há momentos que não tem retratos.
talvez, esses pretendam ser esquecidos.

29.6.11

dos teus beijos sem amor

de quando tu não desabrochas, eu nem saio da fruta.
apodreço dentro da casca e morro.
das volúpias da carne que te vê e não te consome. do afago.
do que insiste em te consumir. do que nem me dá.
do que eu escondo. do que escancaras.
quando inverto, dás nó.
quando invento, taciturnas.
folgo e gozo quando tua boca alcança a orelha.
mesmo quando efêmero é.

te aprendo.
te sinto.
e vou.


24.6.11

do que nem sei o quanto gosto

da noite que o gelo entrava pelos furinhos da janela
quando tua orelha era quase vermelha
que de tanto vinho que misturou com cerveja ficou surda
que a lembrança daquela lástima ficou turva
que o turvo ficou perene
que o que mal segurava o suspiro
virou abraço
que o virtual virou travesseiro
o que era cisma virou saudade
e a saudade, essa, é só encarte

(pra ela que foi ali e já volta)


19.6.11

das laranjas que rebolam ao vento



O vento norte, quente, barulhento, quente e barulhento
Faz com que a imaginação carregue umas coisas para os dedos. Sentado aqui, assistindo ao bom dvd da Maria Gadú vejo as árvores ali fora deitando empurradas pelo vento que já se tornou intransigente.
Mas o legal é o rebolado da laranja no pé. Me chamou a atenção a dança. Quase um cara-caramba-caracaraÔ.

18.6.11

Marcha da Liberdade em Porto Alegre

Cerca de quinhentas pessoas se reuniram neste sábado para defender o direito a ser. Ser mulher, ser homem, ser homossexual, ser usuário de maconha, ser estudante, ser cidadão. O direito a ser respeitado, aceito, ouvido. O direito a ter direitos. O tempo cinza limitou-se ao céu de Porto Alegre. O chão, onde estavam os pés dos manifestantes, esteve colorido com os infinitos tons da liberdade. Até a chuva esperou a dispersão dos indignados para jogar alguns pingos, e mesmo assim logo se arrependeu.

Andando, sentando, pulando e correndo, quinhentos jovens de todas as idades marcharam do parque da Redenção até a antiga prefeitura de Porto Alegre, gritando por liberdade, por redenção. Enquanto a Globo dizia que “a polícia não conseguiu garantir o direito de ir e vir dos motoristas", os jovens porto-alegrenses criavam ecos e faziam eco a movimentos semelhantes que aconteciam ao mesmo tempo por todo o Brasil, e gritavam que “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”, e que “o povo não esquece, abaixo a RBS!”.

O povo gritou, nas gargantas ou nos cartazes – assim como os muros, mídias do povo – que está “lutando por liberdade pra construir uma nova sociedade”, que faz “apologia ao debate”, e que “ideias são à prova de balas”. E perguntou: “Se reprimir é o certo, por que tá tudo errado?".

Partidos e não-partidos, entidades e não-entidades, pessoas. Muitas das principais pautas de todas as juventudes brasileiras estiveram representadas na Marcha da Liberdade em Porto Alegre. Não houve qualquer conflito com polícia ou população. Pelo caminho, muitos transeuntes sacavam celulares e máquinas fotográficas e registravam a versão brasileira dos movimentos de indignados que começam a acontecer pelo mundo. Muitos outros aderiam à caminhada sem convite direto: o melhor convite foi a própria pauta de reivindicações. Buzinas pelo caminho de ruas parcialmente tomadas por gente? Apenas saudações simpáticas à batucada e aos passos que seguiram rumo à democracia real. Já.

Alexandre Haubrich – www.jornalismob.wordpress.com

A marcha propositalmente sem fim


Sábado de sol. Um dia depois de outro em que um dilúvio caiu em Santa Maria e na minha cabeça. Uma sexta-feira quase treze - com direito a Jason e tudo. Acordei zoado de uma noite cheia de cerveja e um rock quase bom. Aquela comida requentada da madrugada ainda se remexia dentro do meu estômago.

Tudo bem, passou. É outro dia. Dia da Marcha da Liberdade.
Eu, como jornalista, ou quase isso, não podia deixar de estar presente.
Algo de tanta repercussão no país por conta de muita confusão em São Paulo advinda da marcha da maconha. Esta que, agora, está liberada oficialmente. É legítima por lei.

Mas não é disso que eu queria falar.

Fui. Assim como tantos outros que estavam lá, com a curiosidade e quase uma desesperança de que seria um movimento uníssono de uma causa. Talvez essa curiosidade e, até, pouca infirmação, fez um grupo, de quase duzentas pessoas, se reunir na concha acústica do parque Itaimbé.

Maconheiros, viados, lécas, artistas, chimarristas, sambistas, jornalistas, vereadores, trabalhadores e todos os estereótipos possíveis estavam lá por uma causa. Uma causa calada e velada há tempos. A causa de se fazer presente, de mostrar a cara, de gritar e fazer barulho para que suas causas de vida fossem ouvidas.
A questão não é a maconha, não é a sexualidade.
Essas coisas estão cravadas na sociedade, ninguém tira. O que se queria ali era chamar a atenção para que o mundo, ou quem legisla, pense em um coletivo e não na sua ideologia caquética e enferrujada.

Estar na Marcha da Liberdade fez pensar, apesar umas cervejas, que a vida não precisa ser assim tão sem brilho, sem barulho, sem shake-your-body.

A marcha foi pela liberdade de expressão, pela liberdade de SER.
E ser é importante.
Ser é o que nos mantém vivos e pensantes.
Faz com que a gente acorde e vá ao banheiro, olhe no espelho e diga bom dia.

Vida é marcha sem fim - ou com um fim que é a morte.
Enquanto não morrermos, estamos lutando.
Por amor, por carinho, por reconhecimento do que somos.

E o que somos é nosso e ninguém pode proibir.

*fotos da queridona Carolina Cornelius Reichert

11.6.11

dos olhos verdes e saia curta


Né... fala sério!
Ela caminhava sempre naquela marcha sensual e firme.
Seu rosto levemente arredondado, boca larga e lábios grossos e vermelhos. Olhos verdes. Cabelo escuro. Estatura baixa, seios fartos.
Certa vez a vi sentada no bar da esquina, era umas quatro da tarde. Uma pequena porção de luz do sol ainda lambia a perna da mesa, pincelando de amarelo a coxa delgada, fazendo brilhar os pelinhos tão finos quanto o possível de enxergar. Já tinha visto ela com aquela saínha jeans. O verão é a estação perfeita pra ela. O inverno não tem o direito de privar o mundo daquelas pernas, barriga e seios esculpidos por algum artista que a fez como obra fundamental. Estado da arte.
Na ocasião, eu vinha correndo de uma entrevista e precisava entregar o texto pro revisor em quarenta e cinco minutos.
Era uma matéria sobre a patética reforma que tavam fazendo do praça principal. Então vou eu passando pelo bar da esquina e vejo aquela cena surreal. E mais surreal foi ela ter sorrido pra mim. Vocês não vão acreditar. ELA ACENOU E ME CHAMOU. Como assim?
Fiquei um pouco sem jeito e perguntei se era comigo mesmo. Ela confirmou com a cabeça enquanto caía um pouco da franja sobre os olhos e o nariz. Os três segundos que fiquei paralisado ao ver a cena pareceram três horas. (imaginem essa cena com uma iluminação fria e azulada).
O copo de cerveja que ela segurava na mão esquerda refletiu um raio de sol que fez o favor de me tirar do transe. Obviamente fui até a mesa dela - agora já nem importava mais a figura do revisor na história - e perguntei em que eu podia ajudar. Ela disse pra eu sentar na mesa que precisava de companhia, estava muito triste - adeus revisor.
Disse que o namorado tinha terminado com ela - que imbecíl.
Me convidou para ir a uma festa e tomar todas as champanhas possíveis. Aceitei.
Fomos para a casa de uma amiga saída da mesma forma que ela. Porém, ruiva.
Passamos algumas horas falando sobre como a vida é injusta com as pessoas - naquela situação não havia injustiça nenhuma em minha vida.
Por volta das duas da madrugada ela foi ao banheiro e demorou um pouco a voltar. Sua amiga foi ver o que tinha acontecido e também sumiu. Poxa. Fiquei preocupado. Ouvi um grito seguido por risadas das duas. Obviamente, fui verificar. Sim. Elas estavam seminuas sobre a cama com lençol de seda preto. Sabe aquela cena de filme? Pois é.
As duas perceberam que eu estava escorado na porta paralisado. Sentaram-se encostadas na parede e, simultaneamente esticaram os braços e com o indicador me convidaram para o que seria a maior festa sexual que a minha vida poderia suportar. Duas ninfas, provavelmente saídas da mente de Nabokov, e eu. Como num flash, eu estava sobre a cama só de meias. (?)
A amiga ruiva, me puxou pelo cabelo e beijou meu pescoço enquanto a semideusa morena jogava champanha sobre o peito. Flutuamos em um ato surreal. Mas, né. Fechei os olhos enquanto beijava os lábios macios das duas ao mesmo tempo.
Ao abrir os olhos me deparei com uma senhora sem dentes e quase careca sorrindo pra mim e dizendo: vem cá, garotão!

*sonhei isso noite passada.

8.6.11

Querido Inverno


Querido Seu Inverno

Escrevo essa carta pois creio que houve um equívoco em sua ação nos últimos dias. Acho que o senhor está errado. Ou, ao menos, está olhando o calendário de outro ano. Sei lá o que o senhor fez! Anda bebendo demais?
Faltam ainda uns 15 dias para que o senhor possa aparecer. E aviso que já há uns 20 que botou o narigão aqui no mundo. Veja bem: isso não é muito legal, visto que tem coisas que precisam ser respeitadas. Como os semáforos pelos motoristas.
Seu dia de nascimento é por volta de 21 de JUNHO. Estamos apenas no dia 8 e tá frio pra dedéu.
As pessoas precisam se preparar.
Eu, por exemplo, já não tenho mais ceroulas e mijões e camisetas de manga comprida para usar. Não é assim tão fácil as mamães lavarem as roupas no frio e na chuva. Não seca.
Agora eu tenho dormido com três - três - cobertores. É pesado.
Minha aula é de manhã. O senhor faz ideia de como é levantar da cama com 2 graus de temperatura e sensação de -9?
E depois de levantar ter que ir parar embaixo do chuveiro?
Não! Isso não está certo, seu inverno.
Tenha um pouco mais de calma e depois que vier nos congelar, tenha mais pressa em sair.
Meu pai fica triste. Porque no inverno é ruim de beber cerveja.
Ele diz que tem que tomar vinho daí. E vinho da azia, segundo ele.
Aqueles momentos de solzinho e bergamota não são suficientes pra abafar a brabeza que me dá quando eu acordo e não quero colocar o nariz pra fora das cobertas.
Mas minha mãe diz que eu tenho que ir pro colégio.
Se eu não fosse pro colégio eu não saberia escrever essa carta. Minha mãe tá é bem certa.
Volto a lembrar que o senhor é quem está errado, seu Inverno.
Peço que repense sua atitude e só reapareça daqui um tempo mais.

Um abraço cordial desse amigo que gosta do senhor só por alguns momentos particulares.

Atenciosamente, Rodrigo Ricordi, 9 anos, vivente em Santa Maria.

*carta supostamente fictícia. imagem real, mas sem fonte. :)

6.6.11

back do beck

fumarei
I'll be back
um cigarro e não um beck

(praquela do tempo)

22.5.11

teatralizo

quando da boca do palco estende a mão e sorri
quando joga o cabelo molhado
do suor dos aplausos que te dedico
nos sonhos daquelas noites
em que és tão presente quanto teu cheiro
ao lado do travesseiro
quanto aquela mão apertada que sorri
dizendo calma
teatralizo quando te sigo até o profundo da noite
e te afago o dorso
quando o vapor de mate com mel aquecem tuas tensões
quando te afogam e quando te casas
quando te iluminam e quando te apagam
quando és mais que uma
ou quando és a luz e a estrela e o chão
quando tua feição me dá impulso
quando teu riso obriga o meu a nascer
quando o meu ranço vira piada e some
teatralizo ao dizer teu nome