18.6.11

Marcha da Liberdade em Porto Alegre

Cerca de quinhentas pessoas se reuniram neste sábado para defender o direito a ser. Ser mulher, ser homem, ser homossexual, ser usuário de maconha, ser estudante, ser cidadão. O direito a ser respeitado, aceito, ouvido. O direito a ter direitos. O tempo cinza limitou-se ao céu de Porto Alegre. O chão, onde estavam os pés dos manifestantes, esteve colorido com os infinitos tons da liberdade. Até a chuva esperou a dispersão dos indignados para jogar alguns pingos, e mesmo assim logo se arrependeu.

Andando, sentando, pulando e correndo, quinhentos jovens de todas as idades marcharam do parque da Redenção até a antiga prefeitura de Porto Alegre, gritando por liberdade, por redenção. Enquanto a Globo dizia que “a polícia não conseguiu garantir o direito de ir e vir dos motoristas", os jovens porto-alegrenses criavam ecos e faziam eco a movimentos semelhantes que aconteciam ao mesmo tempo por todo o Brasil, e gritavam que “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”, e que “o povo não esquece, abaixo a RBS!”.

O povo gritou, nas gargantas ou nos cartazes – assim como os muros, mídias do povo – que está “lutando por liberdade pra construir uma nova sociedade”, que faz “apologia ao debate”, e que “ideias são à prova de balas”. E perguntou: “Se reprimir é o certo, por que tá tudo errado?".

Partidos e não-partidos, entidades e não-entidades, pessoas. Muitas das principais pautas de todas as juventudes brasileiras estiveram representadas na Marcha da Liberdade em Porto Alegre. Não houve qualquer conflito com polícia ou população. Pelo caminho, muitos transeuntes sacavam celulares e máquinas fotográficas e registravam a versão brasileira dos movimentos de indignados que começam a acontecer pelo mundo. Muitos outros aderiam à caminhada sem convite direto: o melhor convite foi a própria pauta de reivindicações. Buzinas pelo caminho de ruas parcialmente tomadas por gente? Apenas saudações simpáticas à batucada e aos passos que seguiram rumo à democracia real. Já.

Alexandre Haubrich – www.jornalismob.wordpress.com

A marcha propositalmente sem fim


Sábado de sol. Um dia depois de outro em que um dilúvio caiu em Santa Maria e na minha cabeça. Uma sexta-feira quase treze - com direito a Jason e tudo. Acordei zoado de uma noite cheia de cerveja e um rock quase bom. Aquela comida requentada da madrugada ainda se remexia dentro do meu estômago.

Tudo bem, passou. É outro dia. Dia da Marcha da Liberdade.
Eu, como jornalista, ou quase isso, não podia deixar de estar presente.
Algo de tanta repercussão no país por conta de muita confusão em São Paulo advinda da marcha da maconha. Esta que, agora, está liberada oficialmente. É legítima por lei.

Mas não é disso que eu queria falar.

Fui. Assim como tantos outros que estavam lá, com a curiosidade e quase uma desesperança de que seria um movimento uníssono de uma causa. Talvez essa curiosidade e, até, pouca infirmação, fez um grupo, de quase duzentas pessoas, se reunir na concha acústica do parque Itaimbé.

Maconheiros, viados, lécas, artistas, chimarristas, sambistas, jornalistas, vereadores, trabalhadores e todos os estereótipos possíveis estavam lá por uma causa. Uma causa calada e velada há tempos. A causa de se fazer presente, de mostrar a cara, de gritar e fazer barulho para que suas causas de vida fossem ouvidas.
A questão não é a maconha, não é a sexualidade.
Essas coisas estão cravadas na sociedade, ninguém tira. O que se queria ali era chamar a atenção para que o mundo, ou quem legisla, pense em um coletivo e não na sua ideologia caquética e enferrujada.

Estar na Marcha da Liberdade fez pensar, apesar umas cervejas, que a vida não precisa ser assim tão sem brilho, sem barulho, sem shake-your-body.

A marcha foi pela liberdade de expressão, pela liberdade de SER.
E ser é importante.
Ser é o que nos mantém vivos e pensantes.
Faz com que a gente acorde e vá ao banheiro, olhe no espelho e diga bom dia.

Vida é marcha sem fim - ou com um fim que é a morte.
Enquanto não morrermos, estamos lutando.
Por amor, por carinho, por reconhecimento do que somos.

E o que somos é nosso e ninguém pode proibir.

*fotos da queridona Carolina Cornelius Reichert

11.6.11

dos olhos verdes e saia curta


Né... fala sério!
Ela caminhava sempre naquela marcha sensual e firme.
Seu rosto levemente arredondado, boca larga e lábios grossos e vermelhos. Olhos verdes. Cabelo escuro. Estatura baixa, seios fartos.
Certa vez a vi sentada no bar da esquina, era umas quatro da tarde. Uma pequena porção de luz do sol ainda lambia a perna da mesa, pincelando de amarelo a coxa delgada, fazendo brilhar os pelinhos tão finos quanto o possível de enxergar. Já tinha visto ela com aquela saínha jeans. O verão é a estação perfeita pra ela. O inverno não tem o direito de privar o mundo daquelas pernas, barriga e seios esculpidos por algum artista que a fez como obra fundamental. Estado da arte.
Na ocasião, eu vinha correndo de uma entrevista e precisava entregar o texto pro revisor em quarenta e cinco minutos.
Era uma matéria sobre a patética reforma que tavam fazendo do praça principal. Então vou eu passando pelo bar da esquina e vejo aquela cena surreal. E mais surreal foi ela ter sorrido pra mim. Vocês não vão acreditar. ELA ACENOU E ME CHAMOU. Como assim?
Fiquei um pouco sem jeito e perguntei se era comigo mesmo. Ela confirmou com a cabeça enquanto caía um pouco da franja sobre os olhos e o nariz. Os três segundos que fiquei paralisado ao ver a cena pareceram três horas. (imaginem essa cena com uma iluminação fria e azulada).
O copo de cerveja que ela segurava na mão esquerda refletiu um raio de sol que fez o favor de me tirar do transe. Obviamente fui até a mesa dela - agora já nem importava mais a figura do revisor na história - e perguntei em que eu podia ajudar. Ela disse pra eu sentar na mesa que precisava de companhia, estava muito triste - adeus revisor.
Disse que o namorado tinha terminado com ela - que imbecíl.
Me convidou para ir a uma festa e tomar todas as champanhas possíveis. Aceitei.
Fomos para a casa de uma amiga saída da mesma forma que ela. Porém, ruiva.
Passamos algumas horas falando sobre como a vida é injusta com as pessoas - naquela situação não havia injustiça nenhuma em minha vida.
Por volta das duas da madrugada ela foi ao banheiro e demorou um pouco a voltar. Sua amiga foi ver o que tinha acontecido e também sumiu. Poxa. Fiquei preocupado. Ouvi um grito seguido por risadas das duas. Obviamente, fui verificar. Sim. Elas estavam seminuas sobre a cama com lençol de seda preto. Sabe aquela cena de filme? Pois é.
As duas perceberam que eu estava escorado na porta paralisado. Sentaram-se encostadas na parede e, simultaneamente esticaram os braços e com o indicador me convidaram para o que seria a maior festa sexual que a minha vida poderia suportar. Duas ninfas, provavelmente saídas da mente de Nabokov, e eu. Como num flash, eu estava sobre a cama só de meias. (?)
A amiga ruiva, me puxou pelo cabelo e beijou meu pescoço enquanto a semideusa morena jogava champanha sobre o peito. Flutuamos em um ato surreal. Mas, né. Fechei os olhos enquanto beijava os lábios macios das duas ao mesmo tempo.
Ao abrir os olhos me deparei com uma senhora sem dentes e quase careca sorrindo pra mim e dizendo: vem cá, garotão!

*sonhei isso noite passada.

8.6.11

Querido Inverno


Querido Seu Inverno

Escrevo essa carta pois creio que houve um equívoco em sua ação nos últimos dias. Acho que o senhor está errado. Ou, ao menos, está olhando o calendário de outro ano. Sei lá o que o senhor fez! Anda bebendo demais?
Faltam ainda uns 15 dias para que o senhor possa aparecer. E aviso que já há uns 20 que botou o narigão aqui no mundo. Veja bem: isso não é muito legal, visto que tem coisas que precisam ser respeitadas. Como os semáforos pelos motoristas.
Seu dia de nascimento é por volta de 21 de JUNHO. Estamos apenas no dia 8 e tá frio pra dedéu.
As pessoas precisam se preparar.
Eu, por exemplo, já não tenho mais ceroulas e mijões e camisetas de manga comprida para usar. Não é assim tão fácil as mamães lavarem as roupas no frio e na chuva. Não seca.
Agora eu tenho dormido com três - três - cobertores. É pesado.
Minha aula é de manhã. O senhor faz ideia de como é levantar da cama com 2 graus de temperatura e sensação de -9?
E depois de levantar ter que ir parar embaixo do chuveiro?
Não! Isso não está certo, seu inverno.
Tenha um pouco mais de calma e depois que vier nos congelar, tenha mais pressa em sair.
Meu pai fica triste. Porque no inverno é ruim de beber cerveja.
Ele diz que tem que tomar vinho daí. E vinho da azia, segundo ele.
Aqueles momentos de solzinho e bergamota não são suficientes pra abafar a brabeza que me dá quando eu acordo e não quero colocar o nariz pra fora das cobertas.
Mas minha mãe diz que eu tenho que ir pro colégio.
Se eu não fosse pro colégio eu não saberia escrever essa carta. Minha mãe tá é bem certa.
Volto a lembrar que o senhor é quem está errado, seu Inverno.
Peço que repense sua atitude e só reapareça daqui um tempo mais.

Um abraço cordial desse amigo que gosta do senhor só por alguns momentos particulares.

Atenciosamente, Rodrigo Ricordi, 9 anos, vivente em Santa Maria.

*carta supostamente fictícia. imagem real, mas sem fonte. :)

6.6.11

back do beck

fumarei
I'll be back
um cigarro e não um beck

(praquela do tempo)

22.5.11

teatralizo

quando da boca do palco estende a mão e sorri
quando joga o cabelo molhado
do suor dos aplausos que te dedico
nos sonhos daquelas noites
em que és tão presente quanto teu cheiro
ao lado do travesseiro
quanto aquela mão apertada que sorri
dizendo calma
teatralizo quando te sigo até o profundo da noite
e te afago o dorso
quando o vapor de mate com mel aquecem tuas tensões
quando te afogam e quando te casas
quando te iluminam e quando te apagam
quando és mais que uma
ou quando és a luz e a estrela e o chão
quando tua feição me dá impulso
quando teu riso obriga o meu a nascer
quando o meu ranço vira piada e some
teatralizo ao dizer teu nome

20.5.11

both

quando era do âmago era simples e era vulgar tanto que nem tinha pulgas mas carrapatos não tinha nem aquelas rodas que giram a falsidade e formam um flash de coisas que passaram e acabaram por se esconder na encosta mais próxima ao coração da dubiedade do passo a dar pra frente da duplicidade traduzida em descontentamento que bate hora ali hora além que não goza da maior alegria sobre o leito pela incapacidade da alma ser dividida e partilhada com naturalidade fica sempre a questão óbvia ética poética eclética imagética frenética PATÉTICA

9.5.11

O Serial Killer que não desistiu a tempo

Após o penúltimo assassinato eu fiquei naquela zona de conforto pós-sangue. Ah! Como foi bom fazer aqueles cortezinhos cirúrgicos! Mas minha última vítima foi complicada.
Eu vinha observando ela por um bom tempo. Ia anotando seus passos e sua rotina.
Eu sempre alternava meu disfarce para não chamar a atenção da moça. Jamais conseguiria ser um assassino se fosse bonito. Mulheres morenas e altas – minhas preferidas – jamais olhariam para um cara barbudo e de óculos em um bar, por exemplo.
Eu sabia todos os lugares que frequentava, que horas acordava, que horas almoçava, que horas ia aos pés. Sabia bem os banheiros que ela preferia para fumar escondida nos restaurantes. Um dia acordei e pensei: chega não agüento mais de saudade daquele sanguinho quentinho saindo de uma bela morena. Dei aquela chicotadinha nas minhas costas e bolei o plano. Depois disso a minha vida começou a virar um inferno.

Na noite em que resolvi matar Lorena eu já saquei que algo estava estranho. Ela entrou no bar pra comprar cigarro, me olhou e sorriu. Ela NUNCA tinha feito isso. Pensei que meu disfarce estava funcionando. Mas tudo bem, fingi que não vi e não retribuí. A ideia era a seguinte: eu ia seguir ela até a rua XVII. Quando ela dobrasse a direita eu seguiria reto e pegaria a moto para fazer a volta na quadra mais rápido que ela. Na passagem do beco, eu ia ensacar a cabeça dela e jogar dentro da van.
Incrivelmente, ela saiu do bar e tinha muita gente na calçada. E percebi um homem do outro lado da rua – que depois fui apresentado como Bruno – falando num celular e olhando pra ela. Logo vi que ela atendeu e olhou pra ele. Cruzou a rua e os dois foram juntos até o teatro. (Sabia que deveria ter grampeado o telefone dela.. acho que ela está começando a namorar).

Bom, tudo bem. Tentarei amanhã ou depois. Mas vou mudar a estratégia.

Quinta à noite ela sempre ia ao mercado. Mudei o disfarce. Coloquei um terno e a segui até a loja. Comprei um Ruffles e um capuccino e fiquei comendo no carro até ela chegar ao caixa. Ia oferecer ajuda para colocar a compras no porta-malas e tentar marcar um encontro. Eu tava muito bonito pra ela recusar um café. Me distraí e quando percebi, ela já estava chegando perto do carro. Levantei correndo e não me dei conta que tinha colocado o cinto de segurança. Resultado: mancha na camisa. Assim não dá! E ainda por cima vi que o namoradinho dela estava no carro. Ele me viu limpando a camisa com o lenço de papel. Eu batia a cabeça no volante de raiva e ainda por cima bati a cabeça na buzina quando o carro dela passava ao lado do meu! Ela também me viu. Menos um disfarce, mais um plano para elaborar.

Bom, tudo bem. Tentarei amanhã ou depois. Mas como?

Na sexta ela sempre vai naquela boate chinfrim na rua 51. Boa noite Cinderela na moça!
Ela sempre toma aquele drink verde de menta, vodka e tônica. Barbada. Vou distrair ela e colocar o pó na taça. Perfeito. Depois eu sento com ela e a levo pro meu lugar preferido: o sótão da minha casa. Onde eu corto aquelas pernas e braços lindos e morenos e monto as perucas dos meus disfarces. Mas o universo realmente estava conspirando contra mim. Era muito azar.
Ela chegou, pediu o drink e assim que chegou eu sentei ao seu lado. Pedi o mesmo que ela e coloquei a droga. Puxei papo e troquei as taças sem ela perceber. Ela sorriu e conversou comigo um pouco. Quando ela estava levando a taça a boca um bêbado começou a bater com a cadeira no garçom que esbarrou nela e a bebida foi toda, todinha pro chão. E eu não tinha droga reserva. Imagina a minha raiva. Eu juro que chorei de raiva. Eu não agüentava mais. A minha crise de abstinência estava me matando. Eu sonhava com um mundo vermelho, com pernas e braços andando pelas ruas e gritando meu nome. Era pesadelo atrás de pesadelo.

Bom, tudo bem. Tentarei amanhã. Mas agora ela pode me reconhecer. O que fazer, por final?!

Já sei! Agora vai!

Restaurante e banheiro. Cigarro e morte. Eu sou um gênio! Como não pensei nosso antes!

Sábado é o dia que ela janta com as amigas. Sem falta. Vou pegar ela no banheiro e tirar pela janela dos fundos. É barbada e no sábado a noite não tem carga e descarga atrás do lugar. Não pode fumar e eu SEI que ela toma uns goles e fica a fim de fumar, vai ao banheiro e fuma. Eu sei. E já segui ela até a porta do banheiro.
Cheguei antes, pedi um yakisoba e uma jarra de vinho barato. Ela chegou junto com duas meninas loiras e sentaram na mesa de sempre. Cerveja vai, cerveja vem. Porções de camarão e batata frita. Aqueles gritos e risadas que só as meninas sabem fazer ecoar dentro de um lugar fechado. E nada de ela ir ao banheiro. Já estava ficando tonto com aquele vinho maldito. Minha impaciência já estava me esmurrando a cara.
Mas finalmente ele levantou e desfilou em direção a morte.

Contei até 10. Eu tremia de excitação e alegria. O choro que era de raiva quase saiu em forma de alegria. Era hoje o dia! Levantei e fui em direção a ela. Rolou aquele encontro no corredor de entrada dos banheiros em que os dois desviam pro mesmo lado, sabe?
Eu senti o perfume doce que vinha dos cabelos negros e longos.
Esperei ela entrar no banheiro. Contei um minuto e meio e entrei atrás dela. Não senti cheiro de cigarro. E ouvia só um barulho de água escorrendo. Começou o meu desespero e minha mão esquerda começou a tremer. Quando dobrei para a parte em que ficam as pias e vi aquela morena estirada no chão, segurando um cigarro, imóvel e com a cabeça toda ensangüentada. Ali eu ajoelhei, chorei e gritei de raiva até que uma garçonete entrou para ver a cena. Eu gritando desesperadamente e batendo com a cabeça na parede: a pia! Perdi para uma pia! Uma pia!

*dedicado a Carolina Carvalho que me indicou o seriado Dexter

3.5.11

Entrevista: Ignorância

Ela desfilou discreta pela praça Saldanha Marinho. A segui por alguns minutos circulando na Feira do Livro de Santa Maria. Ela comprou um crépe de coração com catupiri e uma Coca-Cola. Sentou em uma das cadeiras da praça de alimentação e postou seu notebook sobre a mesa. E ali sentada sorria e digitava algumas coisas rápidas e logo em seguida sorria novamente. Fiquei curioso. Discretamente fiz a volta e passei por trás dela e vi que ela estava acessando o Twitter. Podia, por que há rede wireless livre na área da Feira. Então pensei: "Acho que vou falar com ela. Queria saber o que ela pensa sobre as coisas que disseram sobre ela em cartazes espalhados pela cidade."
Comprei um Sprite - prefiro Sprite a Coca - e pedi licença para sentar. Me apresentei como Rodrigo e disse e perguntei se podia trocar umas palavrinhas - típica técnica de aproach de jornalistinhas como eu.

O que me surpreendeu de início foi que ela disse: "Senta aí, @karekaricordi. Já te conheço. Te sigo no Twitter. Bom te conhecer pessoalmente!" Que pessoa amável! Sabe aquelas criaturas queridas que dá vontade de apertar? Ela é assim. Inofensiva, quase não existe.

Então propus de escrevr o perfil e ela adorou. "Pode me chamar de Igui", disse gentilmente. E comecei as perguntas que transcrevo na íntegra aqui. Para que todos tenham bastante o que ler. Senão...

Eu - Ignorância, já ouvi falar de você incontáveis vezes. Como tu lida com essa fama e essas pessoas que te citam diariamente no mundo todo?
Igui - Olha, Kareka, meu bip toca muito durante o dia. Ele tem duas luzes. Uma verde e uma vermelha. Parece um semáforo. Não para de trocar. A luz vermelha significa que estão falando mal de mim ou estão me citando de maneira errada. Ou seja, se fosse uma sinaleira, os carros ficariam parados por muito tempo.

Eu - Por isso tu veio na Feira do Livro?
Igui - Não só por isso. Vim para tentar falar algumas coisas. Mas não me deixaram. Eu queria falar sobre a campanha de divulgação. As pessoas não quiseram abrir esse debate. Acho que ele é interessante. Tem um palco ali, cadeiras. As pessoas poderiam se interessar por conversar sobre mim e cultura. Sobre mim e preconceito, e sobre o que eu ralmente sou e no que interfiro no mundo.

Eu - Qual é teu contraponto em relação à campanha?
Igui - Eu achei que a intenção da campanha foi genial. Porém, ela passou quilômetros do ponto. Principalmente por me citar. Eu não fiz nada pra eles! Estava quieta na minha. Eles insinuaram que eu sigo e persigo pessoas que não lêem livros. Isso é mentira! Eu não sigo pessoas completamente. Sigo pessoas em partes. E mesmo as que lêem livros e as que dizem que pessoas que não lêem livros SÃO ignorantes. Esses, quando eles ignoram o real sentido do que eu significo. Mas só nessa parte né. Por que eles não são ignorantes na maior parte do tempo. E nem quando passam o dia no tuíter. Imagine só um colega teu que trabalha com atualização de mídias sociais. Ele passa o dia no FaceBook, no Twitter e no site em que trabalha. E o incrível é que ele sabe muita coisa. Pelo menos, como mexer nessa tralha toda, coisa que eu não sei nenhum pouco, sou ignorante. Só mexo no Twitter. Nisso, eu sou contra no teor da campanha.

Eu - Comprou algum livro?
Igui - Não! Não sei ler livros. E não quero aprender. Vai que eu mudo minha personalidade. Deuzulivre! Preciso manter a forma. To aqui comendo esse crépe com Coca e depois vou ali fora fumar um cigarro. Queria tomar uma cervejinha, na verdade. Mas não tem aqui pra vender e nem posso comprar ali no bar da esquina e trazer. Enfim, né. Coisas da vida que nos são impostas.

Depois desse papo, eu agradeci e fomos fumar um cigarro e tomar uma cerva do lado de fora do lonão, lá onde ficam os cachorros.

29.4.11

A República da Farinha – o momento dos grandes partidos políticos brasileiros

A atuação dos partidos políticos brasileiros hoje pode ser explicada através da farinha. Já tivemos o Ciclo do Açúcar, o Ciclo do Ouro, o Ciclo do Café. Tivemos até a versão político-institucional mais chique, mais cheia de fricotes, o café-com-leite, assim com hífen e tudo. Pois hoje vivemos o Ciclo da Farinha. De sacos diferentes, mas ainda assim farinha.

Peguemos os mais encorpados partidos do país e vejamos se a farinha não é o elemento comum entre eles, se não é ela quem norteia os rumos da política nacional. A farinha, unida a doses variáveis de fermento, é a receita geral, ainda que um ou outro mestre-cuca da alta elite culinária prefira a farinha que passarinho não come.

O PSDB segue a receita da vovó estrangeira, que vem e volta ao Brasil de acordo com suas conveniências, mas não gosta muito daqui. De qualquer forma, ela está sempre em contato, enviando sua mais nova receita aos filhinhos tucanos, nova receita que é sempre a mesma. Está caduca ou apenas quer fixar bem seus ingredientes na nossa cabeça? Bondosa. Fato é que o contato é sempre através de cartas, para que venha junto seu cheiro de enxofre, tão agradável ao olfato das aves de bico longo que habitam essas paragens.

A receita do PSDB baseia-se, teoricamente, em fazer o bolo crescer para depois dividir. Mas, cozinheiros amadores que somos, sabemos que em qualquer casa que se preze quem está na cozinha acaba por decidir o quanto quer comer. Se muitos estão ajudando a fazer o bolo, muitos comem, irremediavelmente. Se poucos se fecham a sete chaves na cozinha, fazem um bolo enorme e comem tudo sozinhos.

Mas não veja no PSDB ou em sua avó estrangeira muita criatividade. Com problemas para manter o peso, os tucanos pouco mais fizeram do que deixar mais light a receita usada pelo seu primo DEM, receita essa criada pela querida vovó deste último, a Dona Arena. Essa rigorosa senhora passou a tal receita para o seu filho, o PFL, que repassou para o DEM. Os passos são mais ou menos semelhantes aos da receita do PSDB, mas, para fazer o bolo como prefere o DEM, bata bastante. O bolo da Dona Arena também tem um gosto um tanto adstringente: enrola a língua do vivente, dificulta a fala. E é preciso comê-lo com cuidado, sem estardalhaço e com um ritual determinado anteriormente pelo cozinheiro. Caso contrário o cidadão ficará chocado com o que pode acontecer.

O PT, por sua vez, nunca teve muitas condições financeiras para comer bolo. Comia terra, mas comiam todos. Desde 2001, essa realidade mudou. O PT ascendeu à classe média, e ganhou até o direito a fazer seu próprio bolo. Fez, faz, e tem distribuído os pedaços para mais gente. Mas não deixa mais ninguém entrar na cozinha, e a receita, que pegou emprestada do PSDB, ganhou apenas um pouco mais de açúcar.

E o PMDB? Bom, esse não sabe cozinhar, mas come o que vier. E pede para repetir.

Alexandre Haubrich, jornalista e editor do blog Jornalismo B

5.4.11

pour toi, mon cœur

Eu jamais dei muita bola pra essas datas festivas.
Eu jamais dei bola pras coisas perdidas.
Pros anos que passaram e a gente nem sentiu.
Pros dias em que acordamos
e lá estávamos de braços dados contra o vento que tentou nos derrubar e não conseguiu.
Nem vai.
Te escrevi poemas picantes, blazês e piegas.
Te vivi como irmã e amante; como amiga e mãe; como alegria e saudade.
Saudade essa que sinto todo dia que não tenho a honra de te ter junto a mim.
Poderiam ser duzentos senão nove, seria a mesma coisa.
Feliz sou de estar do teu lado no dia em que o sol te nasce... fechando mais um ciclo.
Te amo do mesmo jeito que a flor ama a abelha, porque ela sabe que, a partir dela, sobrevive em outro galho.
Feliz Aniversário.

3.4.11

aquelas tardes de samba e sol bem longe

quando eu nem sabia o motivo de ser ignorado depois de uma noite em que nem sei o que o samba me fez e depois voltou na tarde do outro dia e que sambei o coração o pé o braço e a sombra daquele passado que nunca foi presente nem futuro do grito preso na ponta do dedo da incapacidade de dar mais que três passos pra frente sem das duzentos pra trás e da fúria daquilo que nunca vai ser o que teve a pretensão de ser por que não era honesto e agora é uma aliança enfiada no dedo de quem cortou os meus porque é tão fácil usar pessoas como se elas fossem camisinhas e como diria o cartola a sorrir eu pretendo levar a vida porque as rosas exalam o perfume que roubam de ti e as horas passam já nem são trezentas

30.3.11

300 horas

das tantas horas que te vi só em letras e uma imagem
daquelas tantas maneiras de chamar a cada anoitecer
quando a madrugada virou mesa de bar
das fantasias que discutimos para driblar a distância que teima em ser presente
das Gabrielas no jornal
das vezes que quisemos avançar a ciência e diminuir o tempo e o espaço
dos chás de limão e pêssego que nem combinam mas nos deixam acordados
(não que haja necessidade)
das duzentas e oitenta e oito horas quais estarás além
e das doze que te dou pra me abraçar

(pra ela que, às vezes, é Gabriela)

29.3.11

do ato do merecimento mútuo

nas noites em que com o dedo em riste te torturei
o canto daqueles jargões de mães tolas e falsas referências
ofereço-te agora a parte que não sustenta nem aquele fio de candura que dissimulaste
aqui existe um gorfo de lenda, paixão
nauseia-me tua presença


no mundo





.

21.3.11

das noites

quando passas assim tão intensa na tua mania de me fazer rasgar envelopes nem imaginas que dói esperar que cada pedaço do meu coração volte a ter cor daquelas noites em que sentir teu cheiro me consumia de rir daquele tempo em que teu corpo evitava a distância do meu quando contávamos aquelas longas filas de estrelas da janela do teu quarto quando fumávamos na sacada quente de sol do verão fios ardentes embolados entre os trapos sobre a cama que hoje é vazia

20.3.11

dos dias

daqueles passos
em direção ao que nem via
criava atucanado a solidez da solidão
julgando próprio o que nem mesmo tinha corpo
imprório e tangente
quase fuga
dos dias que passaram
como se fossem apenas segundos
dos dias que agora passam
como eras
daquelas lembranças
resgatadas por sons
e vozes que cantam palavras
que acabam por machucar

17.3.11

por nada

por nada ouvi muitas vezes depois de dizer gracias por nada me submeti a ser um imbecil por nada acreditei que o verde era amarelo por nada olho as fotos de uma vida que não foi minha por nada fico esperando que algo surja e do nada e por nada eu vou dormir pensando que amanhã é outro dia e por nada eu vou seguir assim por nada lembro do teu sorriso (que nunca é só riso, é sempre gargalhada) que me basta fechar os olhos e sentir e lembrar

16.3.11

o homem que me copiava

Olha isso.. esse tal Caio Fernando Abreu... nunca me leu e escreve do mesmo jeito...

“sabe que o meu gostar por você chegou a ser amor pois se eu me comovia vendo você pois se eu acordava no meio da noite só pra ver você dormindo meu deus como você me doía de vez em quando eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno bem no meio duma praça então os meus braços não vão ser suficientes pra abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta mas tanta coisa que eu vou ficar calado um tempo enorme só olhando você sem dizer nada só olhando e pensando meu deus como você me dói vez em quando.”
(Fragmento de Os dragões não conhecem o paraíso)


A Ana B. tava lendo meu blog e perguntou porque eu tava escrevendo como ele.
Eu respondi que não conhecia a obra e que não tinha tido paciência nem de ler Morangos Mofados.
Aí ela me mostrou esse texto que tava no blog do Grings.
Esse tipo de coisa acontece.
E esse texto veio bem a calhar no dia de hoje.

desespero-te

daquele pecado que era mentira daquela ação que era reacionária que era honesta que era bela aquilo que parecia tão carnal que cheirava a sangue fresco daquele beijo draculeano que ninguém mais escapa resta uma sentelha de algo que era assim e ficou falso que soou falso e que desapareceu como o conde no ar como se evaporasse como aquela poça (de um discurso anterior) daquele bloco que deixou saudade mas que hoje parece conto de fadas volto ao meu bloco igualzinho ao dos hermanos sozinho daquele aguardo me desapego descontente desconexo descuidado desesperado desespero-te

*para ela que lembra de mim quando ouve esse som

dos recados que apaguei do orkut

"nao haveria luz senão fosse a escuridão" (mas isso diz a música do post abaixo) na verdade não haveria muita coisa se não houvesse a amargura a tensão a vontade essas são coisas que apimentam a vida do serzinho maluco que vive sob a nossa pele uns mais intensos outros menos (tem certas coisas que eu não sei dizer) apaguei todos os recados do meu orkut e eram na maioria recados do meu aniversario passado que um dia pensei responder acabei esquecendo e agora os apaguei por pura falta do que fazer mas dentre eles havia alguns legais de aniversário ou não (dela inclusive) de pessoas que nem me dão "oi" na rua de pessoas que nem falam mais comigo de pessoas que nem sei onde se encontram no planeta de pessoas que gosto muito e de quem nem perco meu tempo de coisas que se foram e de coisas que ficaram numa noite em que o incerto parece mais certo do que o nascer do sol da noite em que passei lamentando afirmando meu ego reafirmando meu azar esperando o tempo passar

daquelas rimas do MSN

Kareka Ricordi diz (00:21)
luzzzzzz acesaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
me espera no portão pra você veeeeeeeeeeeeeer
(cantor medíocre de msn)

Verônica M. Barbosa diz (00:22)
q eu to voltando p casaaaaaaa

Kareka Ricordi diz (00:23)
tô me massacrando aqui com o acústico do Lulu Santos

Verônica M. Barbosa diz (00:23)
pra q isso meu fio

Kareka Ricordi diz (00:23)
pq eu to triste
pq eu tô bêbado
pq eu quero sair correndo pela rua
pq eu queria morrer
pq eu queria mil coisas e não posso ter

Verônica M. Barbosa diz (00:24)
foi so p rimar

Kareka Ricordi diz (00:24)
foi quase um poema
vou postar
vou colar
nossa conversa no blog

Verônica M. Barbosa diz (00:24)
vou gritar

Kareka Ricordi diz (00:24)
vou pular (da janela)

Verônica M. Barbosa diz (00:25)
p t encontrar

Kareka Ricordi diz (00:25)
e te abraçar

Verônica M. Barbosa diz (00:25)
e suspirar

Kareka Ricordi diz (00:26)
agora sim eu vou postar

*para minha querida Verônica

Aproveito para postar uma música que julgo ter uma das letras mais bonitas que esse rapaz pode escrever

12.3.11

das noites em que o rock gritou

um beijo e um abraço nela que sempre estve esperando que o mundo desse voltas e ele deu deu como sempre dá e volta sempre pro mesmo lugar do beijo que seria branco e foi preto do abraço que seria da mesma cor e foi de duas da falta que sentia e que aumentou com o passar das horas da ânsia de que o amanhã fosse hoje das horas intermináveis que fazem com que aquilo que nem é passe a ser daquilo que foi se torne bobagem daquelas horas que a conversa virou mentira das horas em que a chuva serenou do dia em que o grito do rock virou saudade e da saudade que virou insônia e da insônia que virou verdade e que cada segundo valerá a pena dos abraços que dou na rainha da bateria

8.3.11

do confete confesso

caíam lentos com a brisa daquela manhã de terça os últimos confetes do carnaval que foi embalado por aquele gigante como o vento que gira gira gira e não anda adiante daquele afago pela madrugada da porta sem chave que não deveria abrir abriu um espaço imenso como o vórtice do furacão da tua sombra colada no chão com a luz amarela que amarela o nascer do sol e faz cada centímetro da minha sombra sentir tua pele arrepiada envolvendo a minha alma que vagava lenta ao ritmo da brisa e dos confetes em noites antes solitárias

5.3.11

da noite em que me apaixonei por uma barata

"se acaso você chegasse" lá na casa do outro lado da rua numa noite de carnaval em que só podia tocar rock e do nada tudo ficasse verde e rosa como ficam as pessoas na avenida sem poça d'água com fantasias queimadas e o beijo fosse tão tão tão bom quanto aquele samba do telefone ou das rosas que não falam e o não beijo que não é adeus e nem nada só uma questão de insignificância confessa pela falta de carinho e de adeus de quem não mora no meu barraco e podia ter morado a quem você nunca fez nenhum nenhum nenhum malzinho e no fim da noite tá lá sentado no balcão olhando pro teto com alguém que você nem conhece e aparece aquela barata e ela fica lá marrom brilhosa olhando pros dois e depois voa

1.3.11

das cartas que escrevi e não enviei

naquele tempo em que eu seguia sem receber as cartas que viriam daquele lugar o qual eu já nem lembrava mais o nome quando eu queria matar a saudade das coisas que dizias pra mim daquele imenso sentimento de pertencimento a uma história que eu contei pra alguém que nem ouviu e ali findou lembro daqueles dias em que lia uma carta por dia e escrevia duzentas e criava duas mil histórias e voltava a dormir extasiado com aquelas promessas de que a vida seria pra frente e nunca pra trás e sempre sempre sempre tudo era bonito e sempre acabava bem mesmo que o improvável batesse à porta ou o provável se confirmasse de forma mais cômica sigo aqui com as cartas que escrevi e não enviei por que não sei mais o que dizer desde o tempo em que já cego punha bitucas de cigarro acesas nos ouvidos pra jamais ouvir o teu adeus