Um amigo meu, o Petralha, é
saudosista. Bastante saudosista, eu diria.
Estávamos conversando, ontem, antes do futebol, e tal.
Entre um gole e outro de quentão, falávamos sobre aqueles velhos tempos de churros no
Calçadão, carrapinha na Floriano, Cine
Independência, Cine Glória, bomba de chocolate no
Copacabana.
Todos esses lugares e coisas remetiam aos
invernos da nossa infância.
Hoje, a gente bebe
vinho quente com cachaça, açúcar e canela.
Junho chega trincando dentes e bolsos com o frio e o dia dos
namorados.
E mais as festas juninas, é claro.
Sempre ouvi falar em barracas do beijo em festas juninas.
Nunca teve nas que eu
fui.
Junho é beijável.
O Petralha, saudosista que é, fica nessa lenga-lenga de ficar lembrando das
marias-chiquinhas que beijou na bochecha nas festas de
São João.
E das
namoradas no inverno. Hoje ele é
solteiro, coitado.
Gastava uma nota por mês pagando
churros.
"Ah, como era bom andar de mãos dadas no calçadão. Numa mão o churros, na outra aquela mãozinha
geladinha e lisa, aquele beijo com um pouco de
açúcar no canto da boca", suspirava Pepê.
Conforme o quentão ia fervendo em nossas cabeças, a
melancolia tomava conta.
Partimos da
infância quentinha para nossas atuais frias
vidas solitárias.
Hoje quando cheguei no trabalho - após passar na frente da Copacabana pelo Calçadão, ver um casal de namorados comendo churros e sorrindo e sentir o cheiro da carrapinha - senti muito frio. Lembrei do
último outono.
Nada era mais
quente e
aconchegante que aquela cama em
Camobi.
Nada.
"Era noite de São João
E eu saia com meu irmão
De bigode de rolha
E chapéu novo em folha
Brim Coringa e alpargata
Toda noite de São João
Eu sonhava em pegar da mão
De uma prenda bonita
De vestido de chita
E Maria Chiquinha"
Noite de São João (Kledir Ramil e Pery Souza)