16.3.11

daquelas rimas do MSN

Kareka Ricordi diz (00:21)
luzzzzzz acesaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
me espera no portão pra você veeeeeeeeeeeeeer
(cantor medíocre de msn)

Verônica M. Barbosa diz (00:22)
q eu to voltando p casaaaaaaa

Kareka Ricordi diz (00:23)
tô me massacrando aqui com o acústico do Lulu Santos

Verônica M. Barbosa diz (00:23)
pra q isso meu fio

Kareka Ricordi diz (00:23)
pq eu to triste
pq eu tô bêbado
pq eu quero sair correndo pela rua
pq eu queria morrer
pq eu queria mil coisas e não posso ter

Verônica M. Barbosa diz (00:24)
foi so p rimar

Kareka Ricordi diz (00:24)
foi quase um poema
vou postar
vou colar
nossa conversa no blog

Verônica M. Barbosa diz (00:24)
vou gritar

Kareka Ricordi diz (00:24)
vou pular (da janela)

Verônica M. Barbosa diz (00:25)
p t encontrar

Kareka Ricordi diz (00:25)
e te abraçar

Verônica M. Barbosa diz (00:25)
e suspirar

Kareka Ricordi diz (00:26)
agora sim eu vou postar

*para minha querida Verônica

Aproveito para postar uma música que julgo ter uma das letras mais bonitas que esse rapaz pode escrever

12.3.11

das noites em que o rock gritou

um beijo e um abraço nela que sempre estve esperando que o mundo desse voltas e ele deu deu como sempre dá e volta sempre pro mesmo lugar do beijo que seria branco e foi preto do abraço que seria da mesma cor e foi de duas da falta que sentia e que aumentou com o passar das horas da ânsia de que o amanhã fosse hoje das horas intermináveis que fazem com que aquilo que nem é passe a ser daquilo que foi se torne bobagem daquelas horas que a conversa virou mentira das horas em que a chuva serenou do dia em que o grito do rock virou saudade e da saudade que virou insônia e da insônia que virou verdade e que cada segundo valerá a pena dos abraços que dou na rainha da bateria

8.3.11

do confete confesso

caíam lentos com a brisa daquela manhã de terça os últimos confetes do carnaval que foi embalado por aquele gigante como o vento que gira gira gira e não anda adiante daquele afago pela madrugada da porta sem chave que não deveria abrir abriu um espaço imenso como o vórtice do furacão da tua sombra colada no chão com a luz amarela que amarela o nascer do sol e faz cada centímetro da minha sombra sentir tua pele arrepiada envolvendo a minha alma que vagava lenta ao ritmo da brisa e dos confetes em noites antes solitárias

5.3.11

da noite em que me apaixonei por uma barata

"se acaso você chegasse" lá na casa do outro lado da rua numa noite de carnaval em que só podia tocar rock e do nada tudo ficasse verde e rosa como ficam as pessoas na avenida sem poça d'água com fantasias queimadas e o beijo fosse tão tão tão bom quanto aquele samba do telefone ou das rosas que não falam e o não beijo que não é adeus e nem nada só uma questão de insignificância confessa pela falta de carinho e de adeus de quem não mora no meu barraco e podia ter morado a quem você nunca fez nenhum nenhum nenhum malzinho e no fim da noite tá lá sentado no balcão olhando pro teto com alguém que você nem conhece e aparece aquela barata e ela fica lá marrom brilhosa olhando pros dois e depois voa

1.3.11

das cartas que escrevi e não enviei

naquele tempo em que eu seguia sem receber as cartas que viriam daquele lugar o qual eu já nem lembrava mais o nome quando eu queria matar a saudade das coisas que dizias pra mim daquele imenso sentimento de pertencimento a uma história que eu contei pra alguém que nem ouviu e ali findou lembro daqueles dias em que lia uma carta por dia e escrevia duzentas e criava duas mil histórias e voltava a dormir extasiado com aquelas promessas de que a vida seria pra frente e nunca pra trás e sempre sempre sempre tudo era bonito e sempre acabava bem mesmo que o improvável batesse à porta ou o provável se confirmasse de forma mais cômica sigo aqui com as cartas que escrevi e não enviei por que não sei mais o que dizer desde o tempo em que já cego punha bitucas de cigarro acesas nos ouvidos pra jamais ouvir o teu adeus

17.2.11

Sangue na boca

Eu tinha 12 anos quando matei a primeira pessoa.
Na época eu tinha medo das pessoas. Eu via sangue por todo lado.
No fundo, no fundo, quando eu deitava, ficava imaginando aquele sangue todo jorrando da cabeça do vizinho que ficava na espreita quando eu voltava da escola. Ele cuidava na janela e roubava todas as moedas que eu conseguia pedindo no caminho de casa.
Onde eu morava nunca teve lei. Aliás, teve. Tinha a lei do revólver.
Quem tinha, conseguia o que queria. Meu pai e minha mãe era da Igreja. Eu até ia. Mas sempre vi os sermões do padre como uma arma tão perigosa e poderosa quanto o trabucão do Zé (meu vizinho).
Um dia ele veio pegar minhas moedas. Eu nem tinha, na verdade. O que eu tinha na mochila era o cano do Adenor. Ele tava fugindo da polícia e cruzou por mim na entrada do beco. Disse: - baixinho, pega e esconde pra mim. Fiquei meio assim de pegar. Mas eu sabia que se não pegasse ele ia me bater depois, no mínimo. E foi muito bom ter pego. Quando o bundão do Zé não acreditou que eu não tinha moedas fez eu abrir a mochila. Passei a mão na benga, olhei pra ele e puxei o gatilho. O sangue jorrou da cabeça dele bem como eu tinha sonhado umas duzentas vezes.
Caiu um pouco de sangue na minha boca. Tava muito perto. Senti aquele gosto de caqui verde, ferrugem, seco. Lembrei dele por dias. Foi como se eu tivesse me afeiçoado pelo gosto e pela cor.
Meio que resolveu os meus problemas temporariamente.
Logo logo surgiram mais pessoas matáveis. O Adenor nunca mais procurou a arma (parece que mataram ele aquele dia) e ela ficou pra mim. Com aquelas quatro balas. Tinha só quatro furos pra fazer.
Num dia de inverno que fazia trinta e seis graus, eu matei um cachorro que parecia uma múmia. Todo escalavrado. Manco. Doente. Ele merecia morrer.
Depois eu matei o papagaio do vizinho. Ele era muito chato e não me deixava dormir no domingo de manhã. Fazia mais barulho que o pagode que começava às nove horas na laje em cima do meu quarto no barraco. Mirei da janela da sala. Acertei a cabeça. Jorrou sangue. Não como o cachorro. Mas jorrou sangue muito por que a cabeça sumiu. Só ficou aquele corpo verde no chão da gaiola que acabou ficando vermelho escuro.
Não matei nada durante seis anos. Deixei o cano escondido lá em baixo do guarda-roupa. Eu tinha resolvido meus problemas. Eu nem pensava que ia surgir um grande problema. Mas eu já tinha 18 anos. Meu pai acumulava dez de pinga. Minha mãe era tão crente que, às vezes, parecia que baixava um espírito mau nela. Dizem que ela tava cheirando cocaína.
Um domingo, desses de pagode na laje, eu acordei com uma gritaria estranha. Não era samba enredo. Ouvi uns gritos da minha mãe. Meu pai tava de pé na sala e minha mãe no chão gritando coisas que eu não conseguia entender. Eles tinham feita dessas muitas vezes nos últimos dias. Quase sempre meu pai descontava em mim. Por que minha mãe tava louca. Não adiantava bater, esmurrar e chutar. Ela nunca parava de gritar.
Eu olhei da porta do meu quarto. Lembrei da arma.
As duas últimas pessoas que matei foram meu pai e minha mãe.

16.2.11

depois que leu o que tinha escrito...

depois bem depois que leu o que tinha escrito ele pensou que poderia ter sido uma pessoa melhor durante a vida toda e que quase quase quase era tudo errado e que de nada da vida tinha feito gozo pleno como uma ejaculação precoce ou o efeito do lança perfume que já nem era mais tão bom assim de uma época pra cá e de uma época pra lá que iam os anos e ficavam mais escuras as pretensões de felicidade ou de deixar de cuspir propostas irrecusáveis a pessoas nem muito como as propostas jogadas em sua própria mania de ser como são assim assim como ele mesmo pensava que era grande coisa e no fundo era só um sapo oportunista e sugador de energias de pilhas enferrujadas e gastas pelo uso descabido da nobreza de ser ou pensar ser útil para alguma coisa inútil e a pilha gasta e o corpo morre como morre o sapo depois de ser picado e esmagado pela cobra que vive circulando nos melhores bares da cidade como se tocasse uma canção de ninar para bebezinhos que correspondem ao sentimento recíproco de afetividade efêmera que é tão tão tão rápida que quando vê já não é mais e quando vê é uma história mal contada sem início nem meio nem fim satisfatórios e depois bem depois que leu o que tinha escrito pensou que deveria ter sido aquela pessoa que se considerava preciosa e não pensar que preciosos são os outros

15.2.11

eco eco eco

sempre era como sempre e sempre do jeito mais escroto e do jeito de ser de um mendigo fedorento de um passado que ele mesmo queria apagar e torcer até sumir como aquela vontade de apertar até gritar e suar e estremecer de raiva e socar a face do espelho naquele dia que acordou de ressaca de cinco litros de vinho bebido em copos de vidro quebrados que cortavam a boca a cada gole e faziam o vinho tinto ficar mais tinto com o sangue e vomitar todos os pensamentos torpes e insanos daqueles dias em que era tudo daquele jeito bonito e feio ao mesmo tempo e era tudo tão tão tão divertido e acabou não sendo mais tão tão tão divertido assim de repente e foi sumindo com se fosse uma poça d'água ao sol de fevereiro sem que nenhum bloco passasse por cima na avenida e nem no salão do clube e sempre foi um pedido de socorro que ninguém ouviu porque não tinha ninguém lá mesmo nem uma mosca verde nem uma lagartixa porque não fazia sentido ter lagartixa se não tinha mosca e nem mosquito e nem bloco e nem marcha e nem confete só o eco eco eco ecoando de lá pra cá e dali pra lá e voltando como tudo volta e como tudo vai assim bem fácil e pouco moderno porque nem é mais moderno ser assim nem assado ou assar ou esperar assar ou comer logo cru porque cru pode queimar ou não fazer bem como comer frutas verdes sempre causa um efeito diferente depende da fruta e da pessoa e de quem espera e de quem vem e do que acontece quando a gente toma vinho tinto em copos de vidro quebrados e acorda querendo socar o espelho ou apertar até sumir ou tem só um pouco de saudade de quando tudo era legal e foi sumindo sumindo sumindo como aquela poça d'água que ficou no sol e não passou nenhum bloco de carnaval por cima na avenida como ficar dentro de casa o dia inteiro e só ouvir ouvir ouvir ouvir ouvir ir ir ir i i i ...

10.2.11

desses olhos

acordo com a sutileza das noites de nuvens bailarinas
deixo de sacar - lento - a lâmina do meu peito a cada segundo
que de segundo já não é mais.. é primeiro
aquela parte em que mutilava meu corpo a cada instante
jaz sob os escombros de uma guerra atômica
acordo com a sutileza das noites de nuvens bailarinas
desses olhos
desses cabelos e desenhos

*para Sara Tibola

16.1.11

Ótima Ressaca

Acordei com dor de cabeça causada pela quantidade de cerveja verde, loura e gelada consumida na noite anterior. Apelidei ela de fada verde.
Resolvi levantar. Estiquei o braço fiz um carinho e dei um beijo na nuca desnuda que havia ao meu lado. Tomei um gole de água e sentei no computador para trabalhar. Não tenho direito a domingos.

Concentrei na tela iluminada e segui a rotina jornalística de todos os dias.
Ela levantou, não disse nada. Entrou no banheiro.
Pude ouvir o barulinho leve e sutil da escova de dentes massageando aquela boca criada com tamanha perfeição pela natureza.
Ouvi barulho de coisas na cozinha.
Segui com meus cliques e toques no teclado.

Percebi a aproximação dela. Ela colocou sobre a minha mesa um copo de chá gelado, meu cigarro e o cinzeiro. Eu sorri. Ela encostou os dois seios lindos nas minhas costas e retribuiu o beijo no pescoço. Eu segui com a mão direita no mouse. O outro braço enroscou no pescoço, virei a cabeça para o lado e dei um beijo calmo, sincero e demorado.

1.10.10

João Bolão e o bolão ideal - ou não

Tem o João, um dos caras que eu mais respeito. A gente chama ele de João Bolão. Não é nada pejorativo. É que ele faz parte da equipe de Bolão de um clube aqui da cidade. Estávamos tomando uma ou duas no bar ontem. Ele contou as últimas peripécias que aprontou no meio dos velhos (por que só velho joga Bolão) em uma excursão para Curitiba. Nem lembrava que essa cidade existia. "Aprontei muito com o velharedo, bebemos todas e ainda ganhamos a semi", disse ele. "Bei, cara, tem que ver que mulheril". Não duvido, deve - MESMO - ser bem divertido sair com velhos aposentados e babões.
Entre nossas trocas de experiências noturnas, ele contou um sonho estranho que teve.
No sonho ele tinha metade da estatura (João é um cara grande, dois metros de altura, braços firmes e compridos de jogar Bolão), era careca e usava óculos fundo de garrafa. Jogava Bolão em um time que nunca tinha vencido uma disputa. Era triste a coisa. Nada funcionava. Nenhuma estratégia. Não adiantava treinar.
Certa feita (dentro do sonho) marcaram um jogo em Panambi contra o melhor time da cidade. Era só mais uma derrota, cerveja e festa. Mas sempre rolava aquela frustração de nunca ganhar uma partida que fosse.
Ao chegar em Panambi, João sentiu uma coisa estranha. Mistura de bem estar com ansiedade. Uma confiança que jamais sentira. Chegou no hotel, bebeu uma lata de cerveja do frigobar, deitou na cama, ligou a TV, zapeou pelos 56 canais, não encontrou nenhum joguinho de futebol pra assistir e dormiu. Acordou de susto com o Adolfo peidando no alto do sono. Foi um tiro de canhão. Horas depois o peido do "Finho" era comentado na mesa do bar pelos colegas dos quartos vizinhos.
Apesar do susto flatulento, João sentia algo bom e animador.
Na saída para o jogo, João - ou Joka, como os companheiros de time o chamam - comentou com Gumercindo: "Acho que a gente vai ganhar, tô sentindo desde ontem." Guma, riu e deu de ombros.
O ginásio do Clube Atiradores de Panambi era novíssimo. A pista de Bolão era lisinha e brilhante. Encerada e besuntada com óleo de peroba. Um brinco de pista. Confraternizaram com os adversários, tomaram umas dezesseis cervejas e resolveram iniciar a cancha.
João ganhou o par-ou-ímpar e sentiu um arrepio confortante que confirmava toda a sensação de que ia ganhar um jogo pela primeira vez.
Eram cinco contra cinco. Quem fizesse mais pontos ganhava. O desempate era do dono da casa. Então, era ganhar ou ganhar.
João, todo confiante, pediu pra jogar a primeira rodada. Escolheu a melhor bola de todas as melhores bolas (eram todas novas mesmo). Foi o melhor primeiro arremesso que ele executou na vida. Strike! A euforia tomou conta da equipe. Foi um Strike atrás do outro. O time da casa não teve chance, ficou nervoso, errou dos pinos diversas vezes.
Enfim, a primeira vitória! Bebida por conta dos donos da casa. Aquela gozação toda sobre ser a primeira vítima do Íbis do mundo do bolão mundial.
E fim de sonho.
João não sabia explicar esse sonho. Por que ele, aparentemente, não tinha motivos para se preocupar com seu desempenho no Bolão.
Depois de mais duas cervejas ele voltou ao assunto. Falou exatamente essas palavras: "Cara, até hoje eu não sei se aquilo foi sonho ou realidade. Tô ficando maluco, velho. Não sei o que fazer".
Fiquei me perguntando quando deitei a cabeça no travesseiro se as coisas na vida se transformam em sonho, se a gente sonha e idealiza as coisas, se idealiza e depois sonha, se temos controle sobre o que sentimos e se devemos querer coisas que fogem do nosso controle. Sendo em sonho, ideal ou não. Se realmente vale a pena calçar um tênis que não nos serve só porque ele é vermelho, bonito e confortável.

15.9.10

Otto - Pra ser só minha mulher

Baita clipe e baita música!
Curte aí..

13.9.10

Proyecto Gomez - Ya no tengo donde guardar mi dolor

Proyecto Gomes toca no Macondo Lugar durante o III Congresso Fora do Eixo etapa Regional Sul.
Santa Maria - RS
Imagem: Marcelo Cabala

8.9.10

Vinte e sete anos completos

É estranho fazer aniversário hoje.
Há um ano atrás eu tinha outra perspectiva de vida.
Tinha menos amigos, mais inimigos.
O telhado da minha casa estava virado em peneira pelas pedras de gelo que caíram do céu no dia anterior.
Estáva voltando de Belo Horizonte. Onde nunca deveria ter ido.
Eu tinha outro destino. Não estaria mais aqui. Sentado sobre as pedras de Santa Maria.
Não teria visto tanta coisa boa. Conhecido tanta coisa nova.
Mal sabia eu o que teria perdido nesse ano mágico.
Com 27 anos, com a saúde um pouco gasta, mas com o espírito de recém nascido, vivo a minha vida (já que isso me foi imposto).
E ela é demais.
Obrigado a quem me proporciona tudo isso.
Obrigado a quem está comigo.
Parabéns pra mim.
Abre-se mais uma temporada para não deixar a corda desatar.
Um brinde.
Tim tim.

13.7.10

Entrevista com a Rinoceronte

Eis uma entrevista com a melhor banda de Santa Maria nos últimos 20 anos sobre o clipe da música Anda no Ar.

O clipe tem direção da minha querida amiga Nani. Ficou muito bom.
Parabéns, baixinha!

Veja esse vídeo também no blog do Macondo Coletivo



E agora o clipe:



Ficha Técnica

Música:
Anda no Ar (Gravada no Estúdio Rocklab, Goiânia/GO, em maio de 2010, com produção de Rinoceronte e Gustavo Vazquez)
Duração:
3:40m
Realização:
Alunos do Curso de Comunicação (Publicidade e Propaganda) da UNIFRA, Santa Maria/RS e Normal Pictures.
Direção:
Ariane Nogueira
Câmeras:
Alexsandro Pedrollo
Denis Carrion
Edição e Finalização:
Denis Carrion
Assistente de Edição:
Marlon Bertoncello
Produção:
Ariéli Martini
Assitente de Produção:
Bruno Appel
Apoio:
Macondo Coletivo, Ulbra Santa Maria/RS, UNIFRA Santa Maria/RS

8.7.10

A marca do paletó - Cont. Cap. 2

Ela dizia que era um grande enigma. Como o da Esfinge. "Decifra-me ou te devoro."
Que no fundo nem era tão difícil assim. Mas, mesmo assim, ela insistia em fazer mistério.
Eu não conseguia perceber um padrão. Nem hora, nem frequência. Muito menos, o que aquilo poderia significar. Se é que significava. As conversas eram vagas. Dispersas e, por isso, instigantes. Para uma próxima.

------------------------------

Marta levou-me ao escritório para dizer coisas pouco óbvias. Suas feições mostravam desejo. Suas palavras tentavam - e conseguiam - esconder essa vontade de atacar meu corpo com o instinto de uma fera.
- Viemos aqui para eu poder me desculpar decentemente por ter esbarrado em você. Por eu ser tão despreocupada com pessoas como você. Sei que a sua vida não é fácil. Acho você bonito.
- Não estou entendendo, madame.
- Acho que bebi demais. Quer uma dose que conhaque? A vida é tão cruel. Quer ser meu amigo?
- Não acho que seria viável. Moro na periferia da Villa. Seu tio não aprovaria tal relacionamento. Preciso voltar ao trabalho.

Ao me virar, percebi que ela vinha em minha direção.
Puxou meu braço. Virei. Ela fixou os olhos nos meus. Tremi. No fundo meu plano estava funcionando. Tinha conquistado a peça principal do tabuleiro. Deixei-a me beijar.

Senti o cheiro da champanha misturado com sua saliva e seu suor perfumado. Teria arrancado seu vestido. Mas não podia correr riscos. Afastei-a e ela saiu da sala correndo.

To be continued...

2.7.10

A intransponível zaga do Toniho Lambari

Tem um amigo meu, o Toninho Lambari. Assitimos o jogo do Brasil contra a Holanda no meu telão de 76' lá em casa. Tomando um bom chimarrão.
Toninho é um cara gordo, mas muito gordo. Tão grande que botava medo em todos os atacantes nos jogos do colégio. Tinha quase a circunferência de um Fusca. Um chutão forte à meia distância. Azar de quem, ou do que, estivesse no caminho daquela perna canhota roliça.
O apelido é resultado de um veraneio em 1996. Uma onda de proporções de desastre natural derrubou o Toninho. Trouxe ele até a beira da praia com sua estrondosa barriga para cima. Parecia uma baleia encalhada na areia de Capão da Canoa. Você pode imaginar o tamanho do umbigo dele? Era comparável ao tamanho de uma caneca de chopp daquelas da Oktoberfest.
Eu, Cocóta e Scarpa nos assustamos com o buléu que o Toni levou e fomos correndo em direção a ele. Perguntamos se estava tudo bem e ele respondeu que sim, só que estava sentino algo estranho na barriga. Pensei que ele tinha machucado alguma costela. Era díficl algo atravessas gravemente aquela bela camada adiposa. Apalpei o lado esquerdo e ele falou que era na altura do umbigo. Olhei aquele umbigo gigantesco e cheio d'água. De repente, para minha surpresa, salta um peixe de dentro e segue rumo aos domínios de Poseidon ou Netuno. Não deu tempo de ver que peixe era. Mas ficou como lambari. A xacota foi eterna nos quatro dias restantes. E o apelido pegou e se mantém até hoje. É um fanfarrão esse Lambari.
Mas voltando às vacas magras. O Brasil perdeu para a Holanda e foi desclassificado. Depois de uns quatro ou cinco minutos de reflexão, o Toninho largou: Cara, esse juíz acabou com o jogo.
Fiquei pensando por um tempo. E concluí que não é uma teoria descartável. Se analisarmos o jogo, as atitudes dos jogadores do Brasil foram de quem estava emocionalmente abalado. Irritados demais. O juíz japonês parava demais o jogo, truncava demais, conversava demais. Juíz de futebol tem um apito que serve para fazer valer a regra do jogo. Possui dois cartões, dos quais um serve de advertência e outro para exclusão. O time holandês (assim como o português) soube que a Seleção se descontrolaria e usou dessa arma para acabar com a possibilidade do Brasil jogar um bom futebol. Robinho esbravejou na cara de um adversário logo aos 5 minutos de jogo. Felipe Melo e Michel Bastos pareciam o Toninho Lambari. E sem estrutura emocional, o Brasil foi uma seleção qualquer e não a Seleção Brasileira.
Mas não foi só isso, é claro. Kaká deixou o futebol lá em Milão. Não levou para Madri e muito menos para o continente africano. Por cima, o melhor jogador do Brasil chutou apenas três vezes a gol durante a Copa.
Dunga mudou tarde e mal. Mas as opções não eram das melhores. Trocou L Fabiano por Nilmar quando deveria tirar o inoperante Kaká.
A seleção holandesa que tem os craques que tem se aproveitou de tudo isso e foi adiante na copa. E o hexa, como o peixinho do Toninho, foi para os braços dos senhores dos mares da Cidade do Cabo.
Contamos agora que nosso vizinho Uruguai desmonte nosso algoz.
Com todo respeito aos grandes zagueiros Lúcio e Juan: O Toninho Lambari não deixaria aquelas duas bolas passarem da linha do gol.

Agora nos resta esperar a Copa do Mundo do Brasil daqui a quatro anos.

29.6.10

Minha querida R2

Desde 1977, o mundo vê a convivência de dois dróids inseparáveis. George Lucas criou um universo que contém dois robôs que se completam, se ajudam e, por que não, se gostam.
C-3PO e R2-D2 são personagens importantíssimos na saga Star Wars. Eu gosto desses filmes. Eu assisto esses filmes sempre que tenho a oportunidade. A sacada do George Lucas foi genial ao criar esse mundo do futuro que é tão igual ao nosso. Aquele vilão inocente, criado por um vilão pobre de espírito. O vilão mitológico que virou vilão porque matou sua amada. Levanta discussões sobre espaços públicos e privados, escravidão, trabalho infantil, tortura, corrupção e golpes de Estado. Um dos grandes xodós do mundo nerd com todos os efeitos especiais.
Mas eu estava falando dos dróids. Sou um cara de estatura mediana e magro. Desengonçado, pés tortos e um pouco disléxico. Avoado e um pouco ansioso. Tenho essa obsessão por escrever. Tenho facilidade com ferramentas de mídia eletrônica. Poderia dizer que sou quase um C-3PO.
Lembrei disso porque ontem uma das mulheres que eu mais considero (depois da minha mãe e as progenitoras dos meus pais), disse publicamente que prefere trabalhar junto comigo. Segundo ela, a gente funciona bem junto e nos completamos. Um pouco surpreso - usei uma das minhas ferramentas especiais para momentos de embaraço - fiz a piada de que ela pensa e eu executo. Meus olhos marejaram de orgulho e uma emoção considerável me envolveu. Juro que fiquei muito sem jeito. Ela, o cérebro. Eu, a máquina. Igualzinho à dupla robótica. Eu tenho minha R2 (aaRtchu - na pronúncia em inglês) desde o início deste século.
Acho que eu nunca tinha manifestado aqui, e tão abertamente, o que a minha relação com a baixinha significa. E nem precisa. Ela sabe.
Uma pena que tenhamos que morrer um dia.
Nesse caso, eu gostaria que fôssemos feitos de lata.

15.6.10

Zezinho e Golias

Na minha serelépica idade de dez anos, tinha um amigo, o Jorjão. Se comparar com o meu tamanho de hoje, ele mediria dois metros de altura por um e meio de largura. Ele morava no mesmo prédio que eu. Jogávamos fliperama, Super Trunfo, futebol de botão. As férias da escola eram só diversão. O futebol no terreno baldio durava a tarde toda.

O Jorjão era três anos mais velho que eu. Mas, naquela época, isso fazia pouca diferença. Eu era colega de aula do irmão dele, o Zezinho, que batia na cintura do Jorge.
Viviam em pé de guerra aqueles dois. Zezinho insistia em participar das brincadeiras. O irmão não gostava muito. Acho que ele tentava proteger de alguma coisa ou sentia medo que o irmãozinho acabasse por ser superior a ele em alguma brincadeira. Os jovens têm muito medo de serem superados por alguém mais jovem ainda. Mas isso nunca acontecia entre eles, por mais que o Jorjão não fosse muito dotado de habilidades fenomenais. O cara era bom mesmo no botão. Sempre campeão dos nossos torneios.

Nesse ano, dos meus dez anos, combinamos um torneio no primeiro dia das férias de inverno. Não poderíamos fazer aventuras na construção. Era muito frio e chovia. Fizemos o sorteio dos confrontos na semana anterior. No dia, tinha pipoca, bolo e carrapinha. Era junho.
A gente tinha o costume de gravar músicas do rádio em fitas. Cada um levaria uma e escutaríamos todas enquanto rolava a disputa na mesa de botão. Jorjão já comemorava mais um título. Zezinho conseguiu permissão de participar na última hora. O pai dos dois teve que interferir em nosso grupo para que isso acontecesse.

Fiquei feliz quando soube que meu primeiro adversário seria o Zé Pequeno (eu sempre mudo os apelidos das pessoas). Eu tinha um time melhor e um pouco mais de prática. Surpreendentemente, perdi a partida com um golaço no último lance.
O Zezinho foi avançando e chegou na final contra seu irmão. Era Davi contra Golias. Jorjão começou arrasador e abriu dois gols de diferença logo de cara (três de diferença acabava o jogo). Zezinho estava calmo. Jorjão arrogante. Então a lenda começou a valer. Zé fez o primeiro gol e Jorge se irritou. O empate foi o estopim de uma discussão ferrenha entre os dois. A raiva de Jorjão fez com que ele ficasse cego, no mínimo vesgo. Não acertava mais nada. O caçula da família Weber acabou vencendo a partida. Carregamos Zezinho nos ombros. Foi uma festa digna de um vencedor. Até o derrotado sorriu timidamente enquanto observava.

Uma semana depois o Jorjão foi viajar para o Rio de Janeiro. Na ida até Porto Alegre para pegar o avião, um caminhão se chocou com o ônibus e o Jorjão morreu. Acho que foi a maior tristeza da minha vida. Foi a única reunião triste de nossa turma, o velório. Zezinho parecia não acreditar. Nem chorava. Só o vi chorando de canto alguns anos depois em um churrasco.
Até hoje eu falo com o Zé. Fomos colegas até a faculdade. Ele se formou e foi morar no Rio. Mora na Barra da Tijuca. Conversamos todos os dias pelo MSN.

Até hoje nunca tive coragem de perguntar porque ele chorou quando venceu o irmão no jogo de botão.

13.6.10

Texto colaborativo - 3º FETISM - A Vida é um Perfume

No terceiro dia do FETISM o grupo Teatro Camaleão trouxe a celebração à vida ao palco do TUI, com a peça Uma Estória Abensonhada. O comerciante Mohamed Pangi Pathel ccomemora o casamento de seu filho com uma festa que, aparentemente, é uma celebração de alegria. Mas não é só isso.

O velho Pathel no banco da praça


A linha de tempo do conto A praça do deuses do escritor moçambicano Mia Couto carrega em seu desenvolvimento diversas personagens encarnadas pelos atores Eduardo Colombo, Luciana Oliveira e Valéria Minussi. Durante a apresentação foram mostradas pessoas diferentes em corpos iguais através da técnica de mímesis corpórea.

Dentro do palco marcado com fita e coberto com pétalas de rosa, as personagens entravam e saiam de cena para contar a história do velho comerciante que via a vida como perfume. Sabendo que seu perfume se dissipava, aproveitou o casamento do filho para desapegar das coisas materiais e se despedir de seus queridos da forma menos drástica.

Após a apresentação ocorreu o debate entre os artistas, integrantes da produção do espetáculo e o público. A platéia questionou sobre a composição da peça e como os atores procederam na criação de suas imitações baseadas em pessoas as quais eles viram algo de interessante. Cada um explicou didaticamente a importância de suas escolhas para falar de pequenas coisas que acontecem no cotidiano.

O momento em que Mohamed Pangi Pathel fica sabendo que seu filho vai casar

Uma Estória Abensonhada tem direção de Eduardo Okamoto e Gabriela Amado como assistente de direção. O Grupo Teatro Camaleão está em excursão apresentando o espetáculo em algumas capitais do país, passaram por Belém, Natal e após a apresentação no FETISM seguem para apresentações em Belo Horizonte e Porto Alegre.

Texto: Rodrigo Ricordi
Fotos: Nathália Schneider

Mais textos, fotos e vídeos da cobertura colaborativa do 3º Festival de Teatro Independente de Santa Maria - o famoso FETISM (leia fetííísm) - no blog lindo do festival em www.fetism.blogspot.com

9.6.10

O frio de São João

Um amigo meu, o Petralha, é saudosista. Bastante saudosista, eu diria.
Estávamos conversando, ontem, antes do futebol, e tal.
Entre um gole e outro de quentão, falávamos sobre aqueles velhos tempos de churros no Calçadão, carrapinha na Floriano, Cine Independência, Cine Glória, bomba de chocolate no Copacabana.
Todos esses lugares e coisas remetiam aos invernos da nossa infância.
Hoje, a gente bebe vinho quente com cachaça, açúcar e canela.
Junho chega trincando dentes e bolsos com o frio e o dia dos namorados.
E mais as festas juninas, é claro.
Sempre ouvi falar em barracas do beijo em festas juninas.
Nunca teve nas que eu fui.
Junho é beijável.
O Petralha, saudosista que é, fica nessa lenga-lenga de ficar lembrando das marias-chiquinhas que beijou na bochecha nas festas de São João.
E das namoradas no inverno. Hoje ele é solteiro, coitado.
Gastava uma nota por mês pagando churros.
"Ah, como era bom andar de mãos dadas no calçadão. Numa mão o churros, na outra aquela mãozinha geladinha e lisa, aquele beijo com um pouco de açúcar no canto da boca", suspirava Pepê.
Conforme o quentão ia fervendo em nossas cabeças, a melancolia tomava conta.
Partimos da infância quentinha para nossas atuais frias vidas solitárias.
Hoje quando cheguei no trabalho - após passar na frente da Copacabana pelo Calçadão, ver um casal de namorados comendo churros e sorrindo e sentir o cheiro da carrapinha - senti muito frio. Lembrei do último outono.
Nada era mais quente e aconchegante que aquela cama em Camobi. Nada.

"Era noite de São João
E eu saia com meu irmão
De bigode de rolha
E chapéu novo em folha
Brim Coringa e alpargata

Toda noite de São João
Eu sonhava em pegar da mão
De uma prenda bonita
De vestido de chita
E Maria Chiquinha"

Noite de São João (Kledir Ramil e Pery Souza)


1.6.10

3º Festival de Teatro Independente de Santa Maria

A arte e a cultura não param em função da Copa do Mundo.. começa no mesmo dia o 3º Festival de Teatro Independente de Santa Maria.
De 10 a 19 de junho o Teatro Universitário Independente (TUI), a praça Saldanha Marinho e o Theatro Treze de Maio recebem os espetáculos que vão enfeitar e encantar as tardes e noites da cidade.
Importante ressaltar que nada se paga para assistir às apresentações. Tudinho de graça!
Para as oficinas será cobrada a inscrição.

Galera se juntou hoje no Macondo pra começar a alinhavar a cobertura colaborativa do FETISM 2010.

dentro dessa.

Quem quiser acompanhar a cobertura (matérias, entrevistas, fotos, clipes, rádio ao vivo) pode entrar no blog do FETISM aqui

19.5.10

Vem d'onde?

Venho do tempo que anda
Da porta da casa que fecha
Do cheiro do escuro
Do parto do avesso

Da ponta da história
Do vai-e-vem das entranhas
Das pernas convexas
E dos pensamentos sem memória

Que bela clave de sol encontrei na janela
Que tempo vil que me prende
Que dito de quebra-costela
Quebrando o coração se entende

Venho de lá
Dali
De longe
Quase de ti

Vou nadar no vão sem cor
Vou despular do fundo
Vou afundar
Até chegar onde parti

Rodrigo Ricordi - duas da madrugada de dezenove de maio de dois mil e dez (muitos dês)